Não somos os nossos nomes.
Não somos os nossos defeitos nem as nossas virtudes.
Não somos as marcas que vestimos nem o sabonete que usamos nem a nossa água-de-colónia favorita; não somos o nosso carro nem a nossa casa; não somos a nossa carreira; não somos quanto dinheiro temos.
Não somos o nosso corpo.
Não somos os sonhos dos nossos pais nem a soma dos nossos medos.
Não somos os programas de televisão que vemos.
Não somos o que os outros pensam de nós, mas também não somos o que nós pensamos ser; não somos as palavras que enunciamos; não somos a soma dos nossos desejos e das nossas paixões.
Não somos a nossa idade.
Não somos os nossos erros.
Não somos os nossos horários; não somos as modas que nos ultrapassam; não somos as merdas que nos impingem; não somos as máquinas que utilizamos; não somos as leis que nos regulam; não somos os livros que escrevemos ou que não escrevemos.
Não somos as músicas que ouvimos.
Não somos os filmes da nossa vida.
Não somos o nosso passado.
Há um ano atrás Bartolomeu fumava um cigarro à janela enquanto contemplava o silêncio calmo da noite, enquanto o dia não vinha, a televisão na sala sintonizada num daqueles programas que embalam a mente pela noite dentro, as luzes da casa ligadas num desafio à claridade baça da alvorada. Há um ano atrás Bartolomeu Filisteu Braga e Cunha saltou.