11.09.2006

5.17.2006

note to self:

19.40. Um país pára para ouvir a estilista falar na conferência de imprensa que serve de apresentação dos fatos que a selecção nacional irá usar no Mundial.

5.14.2006

o quinto império

impulso de subirmos a todos os telhados de Lisboa

mas na verdade cairmos aos esgotos por baixo da cidade

erigiremos torres de aço e vidro que recortarão a silhueta à beira-rio

para depois nos ferirmos na aspereza do alcatrão e do sol.

numa trajectória paradoxal e destrutiva

ratificaremos o nosso império de nadas

onde as portas que abrirmos irão estar muradas.

riremos nos espinhos da inveja e no fel do ciúme

mas secretamente regozijar-nos-emos na mesquinhez

fascinados pela refulgência fátua do ego.

e à noite nossos corpos entorpecidos de anestésicos

iniciaremos a sedição com cravos e canapés

e dançaremos até de madrugada

ao despertar do Tejo em dourados e carmins.

4.28.2006

m.

uma cortina de chuva é vertida sobre terra
e nas vidraças há lágrimas molhadas às centenas
espermatozóides esvaziados no útero frio e infecundo do vidro

(eu nem seco nem molhado)

um raiar de luz trespassa as lágrimas
assim a chorarem na indiferença das vidraças
devotas beatas a carpir os males do mundo

(eu nem seco nem molhado)

no útero frio e infecundo vejo as lágrimas
ínfimas gotas nos vidros quebrados da História
e seriam estrelas se no escuro se fizesse luz

(eu nem seco nem molhado)

4.26.2006

portugal

no fundamentalismo do cimento humedecido com o laranja do tijolo
se une a formação da decadência que há em mim
com a selecção artificial das relações de mim para ti


mas é neste respiro doentio do subúrbio
que as minhas chagas choram negras e anónimas
como se os vazios das casas fossem os silêncios das palavras
e os rios de sangue que me atravessam as histórias que se me escapam
dos filhos que se perdem na instabilidade e na celeridade
da tribalização forçada dos inconstantes;


constrói os gritos desta caixa óssea de ânsias discursivas
como exorcismos de desinências gastas de passado
onde a gratificação da crítica criou raízes de dogma


[these things transcend me like rivers of blood soaking me through
and embers of sank vessels weight on my tired tongue
like words that are no longer used…]

e eu vi-te em todo o teu esplendor…

4.23.2006

meditações

There is peace and tranquility in the natural world. O barulho do mar; o murmurar dos ramos das palmeiras; o calor da areia na planta dos pés; o vazio da mente.

a m o r

semear o torpor e a corrupção
no meu corpo e na minha mente
com vocábulos familiares:

amor
amor
amor






amor






coágulos de dor que mancham a brancura do papel
quebram a afasia da urbe em espirais de distância e de intimidade:


        “que me lembre do sabor da tua carne, do gosto da tua língua,
        da irregularidade da tua respiração e do calor do teu desejo;
        mas que olvide tudo o mais até que nem uma maldita memória sejas”

SEXY


o meu corpo é uma prisão...

o sangue espesso escorre...

o sangue espesso escorre para a fina areia
formando uma papa escura nesta praia que não é minha
o mar lambe-me os pés e eu alimento-o de lágrimas
este sangue lusitano de uma pátria que não é minha
sou poeta soldado que pilho metro, sílaba e sintaxe
de uma língua traiçoeira que não é minha
desta ocidental praia saí num sangrar constante
infectado por um veneno lusitano chamado saudade
e de saudade marquei uma cicatriz na minha alma
por cada terra onde passei e me vi português

o tempo entre os tempos

Não somos os nossos nomes.
Não somos os nossos defeitos nem as nossas virtudes.
Não somos as marcas que vestimos nem o sabonete que usamos nem a nossa água-de-colónia favorita; não somos o nosso carro nem a nossa casa; não somos a nossa carreira; não somos quanto dinheiro temos.
Não somos o nosso corpo.
Não somos os sonhos dos nossos pais nem a soma dos nossos medos.
Não somos os programas de televisão que vemos.
Não somos o que os outros pensam de nós, mas também não somos o que nós pensamos ser; não somos as palavras que enunciamos; não somos a soma dos nossos desejos e das nossas paixões.
Não somos a nossa idade.
Não somos os nossos erros.
Não somos os nossos horários; não somos as modas que nos ultrapassam; não somos as merdas que nos impingem; não somos as máquinas que utilizamos; não somos as leis que nos regulam; não somos os livros que escrevemos ou que não escrevemos.
Não somos as músicas que ouvimos.
Não somos os filmes da nossa vida.
Não somos o nosso passado.

Há um ano atrás Bartolomeu fumava um cigarro à janela enquanto contemplava o silêncio calmo da noite, enquanto o dia não vinha, a televisão na sala sintonizada num daqueles programas que embalam a mente pela noite dentro, as luzes da casa ligadas num desafio à claridade baça da alvorada. Há um ano atrás Bartolomeu Filisteu Braga e Cunha saltou.

erasmus

Fúria e Desgraça em Toledo

o predador

O Escritor é um predador de histórias. Alimenta-se das histórias dos outros.

narrativas...

Confundir autor e personagem. Afinal eu sou uma personagem e a realidade é a ficção da minha vida.

assassino

O vocábulo "assassino" é dito ser uma mutação da palavra árabe hashîshîn, que significa aquele que ingere haxixe. Há quem conteste esta etimologia e afirme que ela deriva da viagem de Marco Polo, em 1273, à fortaleza de Alamute, perto do mar Cáspio, nas montanhas de Albruz. Marco Polo descreve uma droga cujos efeitos se assemelham mais ao álcool que ao haxixe. Há ainda outros que consideram que "assassino" refere-se aos seguidores de Al-Hassan (ou Hassan-ibn al-Sabbâh). Diz a lenda que os assassinos desta seita tomavam droga para experimentarem uma visão do paraíso que os esperava ou então que a consumiam para se acalmarem antes das missões de assassinato.

assassino: s.m. / adj.
do It. assassino < Ar. ashohashin, bebedor de haxixe

fumo...

Killing Time before Time kills me.

Glimpses of Paradise


Adormecer embalado pelo levíssimo desaguar da maré na areia fina e branca da praia como se o universo fosse só esta ilhota perdida na vastidão dos oceanos. A lua está esplêndida e a brisa fresca murmura um ligeiríssimo sussurrar nos ramos das palmeiras e da vegetação. Tenho as costas viradas para o mar e, em frente, vejo a silhueta das palmeiras recortada num céu decorado com requinte, magnificamente iluminado por um luar prateado e por estrelas que foram pintadas por um génio. Aqui ao relento sentimo-nos tão aconchegados como se estivessemos debaixo dos mais finos e macios lençois.
Pensativo, escuto o gotejar e o ténue agitar das águas aquém da barreira de corais cujo som serve de contraponto ao marulhar constante e vigoroso das ondas além. Daqui a pouco, a lua vai nascer deste outro lado da ilha e aqui, sentado nesta paliçada, é um locais mais belos onde já alguma vez estive.

um dos Inconscientes

O Lucas está sentado, completamente nú, no sofá da sala. Está a fumar um canhão de erva e a ouvir Bunny Wailer. Lá fora está um calor abrasador, de início de tarde. Mas ele tem a sala meregulhada em sombra, a meia luz por causa da televisão que está sintonizada no National Geographic. Lucas trava o fumo espesso e cinzento nos pulmões e observa atento a equidna na televisão, animal espinhoso, parecido com o ouriço, e que é actualmente um dos únicos dois mamíferos ovíparos existentes. Fu Manchu é a banda favorita do Lucas. Ele só ouve Fu Manchu, reggae, Beastie Boys e Marcelo D2.

o peso da vida

During a couple of minutes after that awakening I was high on myself. I was high on life. Os meus sentidos despertaram como se de um sono profundo de décadas. Os meus ouvidos captavam todos os pequenos detalhes sonoros, o silêncio das águas e da brisa e pelas narinas inalei o cheiro da humidade no ar; a minha visão estava tão sensível que o mundo era todo uma explosão de brilhos e cores intensas que me cegavam de detalhe. Havia-me deixado boiar na água durante alguns minutos, concentrado apenas na minha respiração, a contrariar a tensão existente nos meus músculos e a ignorar o meu ser. O pingar da água encheu os meus ouvidos até que, por fim, o bater do meu coração tomou conta de tudo, quase que o podia tocar, segurar nas mãos, ouvia-o, sentia-o, total e absoluto.

molho barbecue

Um homem entra no KFC em Inglaterra:
- I'd like a Zinger Tower Meal and 3 hot wings, please.
- Would you like to go large, sir? - pergunta a empregada.
- No, regular is just fine.
- Drink?
- Coke.
- That'll be 3.78, sir.
- Could you give me two barbecue dips?
- That's 20p - indica a empregada.
- Oh man! You gotta be kidding me...
- How the hell can you charge me for a dip sauce? - continua o homem, enervado - Goddam!
Pega no tabuleiro e nos molhos e vai-se sentar. Desembrunha o Zinger Tower burger e dá uma trinca cheia de gula. Passados um minuto ou dois, comenta de boca cheia e em voz alta para que todo o restaurante possa ouvir:
- Got a cockroach in my burger!

Pessoa is alive...

amotinava-ve um enxame de morfemas
sob a floresta capilar indomesticável
num banzé de palatais, centrais e velares
submersas na violência das oclusivas
enquanto eu deglutia os teus trejeitos embriagados
e aos soluços regurgitei um enunciado magoado

                  infectaste-me a carne
                  e escravizaste-me a língua
                  neste Português que definha
                  subjugado em bits e em bites,
                  inexorável na sua sintaxe
                  amordaçado na contemporaneidade;
                  colonizado pelo Inglês
                  deformado em mim.


                  [recoil]


                  [retreat]



                  [rebel]





música: "Sleepy Seven" - Bonobo

McLuhanesco

"The electric light is pure information."

"We are the television screen... we wear all mankind as our skin."

"We become what we behold."

"We shape our tools, and therefore our tools shape us."

"The passive consumer wants packages but those who are concerned in pursuing knowledge and in seeking causes will resort to aphorisms, just because they are incomplete and require participation in depth."

"Men at once become fascinated by an extension of themselves in any material other than themselves."

"Like the nomadic hordes wandering across an ancient desert in search of the soul's oasis, graphic man embraces the pleasures of barbarism and swears fealty to the sovereignty of the moment."

in Undertanding Media, Marshall McLuhan

i go for a walk like this

Sentiu o corpo afundar-se-lhe no macio do sofá e conversas que lhe surgiram geométricas ao ouvido. Entendia a mecânica das coisas, naquela lenta desaceleração cósmica do tempo, como se estivesse a apreender os seus sentidos pela primeira vez. Os focos das luzes lá de fora eram pirilampos semeados ao acaso nas sombras azuis que a noite vertera sobre a serra. O Tempo e o Espaço iam-se desagregando no som de Quantic Orchestra: “Sometimes I wonder if I know where I’m going. I go for a walk like this and it seems I have been walking for years and years and years and I don’t know where I’m going. I hear a sound leading me on and I don’t know where it is taking me.”

The Floating World

Naquele Verão muitas vezes nem jantámos.

Passávamos os dias a fumar erva e a jogar Playstation;

pela hora do calor da tarde já estávamos tocados com cerveja;

comíamos pão quente, cozido em forno de lenha,

e quando dávamos por nós já eram horas de ir para a noite de Santa Cruz.